sábado, 27 de setembro de 2014

Mar de tinta




Caindo, caindo, caindo...
Abriu os olhos e viu-se
caindo infinitamente,
numa vastidão
de borrões e escuridão,
agarrou-se ao mundo
mais próximo, abrindo
passagem para um mar
de tinta cinza, sem luz,
cor ou vida, apenas um
cinza chato de um antigo
retrato num velho quadro,
com uma mulher pequenina
e rechonchuda, vestida tal
como um curinga,
equilibrando-se numa
corda invisível com
seu guarda-chuva
fechado a cantar num
tom funesto sobre
pessoas que falharam e se afogaram.
Andou até a mulher e perguntou
"onde estamos?"
mas ela não lhe respondeu,
permaneceu concentrada em
sua corda-bamba invísivel
enquanto cantava baixinho
"afogaram-se os homens,
os amores, os sonhos..."
cutucou-a com o dedo "responda-me!"
somente para ser ignorado
e desistir de uma conversa,
seguiu caminho pelo deserto
de tinta enquanto repetia,
inconscientemente, em sua
cabeça "afogaram-se os sonhos..."
quando pisou em falso e caiu,
caiu e continuou caindo,
até que sumiu na escuridão...

Sem mais,

Fernando Muniz.