terça-feira, 18 de novembro de 2014

O vazio



Singelo, o sussurrar do beijo teu,
Tocou-me como o breve vento primaveril,
Ressuscitando-me, como a um tronco que morreu,
Aqueceu-me a face, e sumiu.

Saudoso, o sutil som de tua boca,
Que ria com versos musicais e gentis,
Tal qual uma tempestade, de alegria inundam a alma,
Que se afoga e padece, vai feliz.

Inebriante é o vislumbre do teu rosto,
Luz angelical, invoca de volta à vida ao morto,
Voltou-se à vida para ver-lhe bela,

Vazio é o nome em meus olhos,
Cujo a distância tornou-os mortos,
Na solitude da saudade eterna!

(Fernando M.)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Capítulo II - O abismo que nos separa.




 Um dia eu li em algum lugar, que quando se encara um abismo por muito tempo, o abismo te encara de volta, mas não acho que seja assim que as coisas funcionam; quanto mais tempo se encara um abismo, mais tempo demoramos para nos distinguir como avulso à ele, é esta a grande verdade da vida, nós somos criaturas falhas, maculamos tudo pelo que passamos, e todos a quem tocamos, como uma grande doença que se espalha lenta e inexorávelmente, matando aos poucos pequenos organismos, que por sua vez contaminam organismos maiores ainda...
 Mas o que eu dizia mesmo? Ah! Há um abismo imenso que separa cada ser humano um do outro, e às vezes até de si próprio; alguns não são capazes de enxergá-lo, à mesma medida que outros não enxergam nada além desse abismo; há pessoas que fazem de tudo para cobrir essa distância e conseguir chegar até si próprias, mas esquecem-se das bestas que habitam dentro de sua consciência, e então, num lampejo, perdem-se totalmente dentro da escuridão que há entre seus demônios e o vazio que as separa do resto do mundo, tornando-se amargas e hostis consigo mesmas e com todas as outras que as rodeiam, sem perceber que estão aumentando mais e mais o abismo que há entre elas e os outros.
 Dizem que o abismo te olha de volta, mas é mentira, você se torna o abismo, você adere a ele vagarosamente, deixando de lado, cada parte do que um dia foi ou sonhou ser. O abismo, como uma besta simbiótica, te consome vagarosamente enquanto te protege do monstro que habita sua mente; pouco a pouco, você se deixa cair em sua infinitude, sem sequer notar que agora não passa de um quase.
 E eu, cansado de assistir tantos caindo, percebi que não há o que temer, pois há muito, ele já nos engoliu; é só uma questão de tempo até que você o perceba...


(Fernando M.)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Capítulo I - O monstro dentro de nós




Por muito tempo eu andei, por muito tempo eu pensei, e não acho que esteja próximo de encontrar a origem do monstro que habita dentro de mim.
Este monstro toma para si, cada parte do meu ser, engole todas minhas expectativas, meus sonhos, meus anseios, tira de mim toda a vontade de viver, ele me persegue em cada fresta escura dentro dos meus pensamentos; quando meus dias são iluminados e contentes, ele está ali: seguindo-me de maneira paciente e cruel, esperando o menor lapso de chance para dar o bote.
É neste momento que ele salta para cima de mim e esvazia-me por completo, fazendo com que eu me torne apenas uma casca vazia, vagando debilmente pela terra.
As pessoas não entendem muito bem como é ser tomado pelo monstro, até que elas sejam tomadas por ele uma vez na vida; humanos são incapazes de sentir, mesmo que empaticamente, algo que nunca sentiram, então eles mutilam uns aos outros, desdenham seus iguais e, como golpe de misericórdia, torturam emocionalmente seus iguais.
Ah, mas quando elas são tomadas! É claramente perceptível, você enxerga o abismo dentro de seus olhos, o vácuo que engole cada partícula de emoção em suas vozes, e acima de tudo, a forma como sua postura se torna trêmula e covarde.
Não é nenhuma novidade que este monstro habita meu corpo por um tempo maior do que eu mesmo o faço, ele controla meus pensamentos, meus anseios, minha vontade, e me drena lentamente, gota por gota, até que não sobre nada.
Mas eu aprendi que você não deve temer ser possuído pela besta, o medo realmente começa quando você a possui...



(Fernando M.)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Sobre sangue e corvos...



Noite, noite e nada mais...
E aí está você, trancada em seu buraco
imundo rabiscando as paredes
com sangue e sujeira,
buscando registrar os mais insólitos
momentos jamais vividos ou sequer
sonhados enquanto cabeças rolam
dentro de sua mente, onde elas
teriam sido muito mais do que
realmente foram em sua vida.

Partiu-se, em dois, três e nada restou!
E aí está você, como um fantasma
do passado delirando com sonhos
que jamais ousou viver e olhares
que jamais tocou a luz dos seus
enquanto sombras devoram sua alma
já tão opaca e vazia quanto os olhos
que miram, mas nada enxergam.

Nunca mais, mas nunca foi!
E mais uma vez, aí está você,
revirando cinzas e fuligem em busca
de algo mais que possa ser destruído
pela peçonha de sua língua,
que lambe e atira mentiras tão afiadas
quanto seu sorriso cínico, agora tão
falso quanto o sonho que não vivemos.

Adeus, até nunca mais!
Eu te vejo sangrar enquanto sigo
e te deixo pra trás.
E assim você se vai, com asas tão negras
quanto o ódio que plantou dentro de mim,
marcando com desgraça o caminho que
traça, enquanto me deleito com o delírio
de serrar seus braços, sua cabeça
e suas asas!


(Fernando M.)

(Ilustração por Paulo Esper)

domingo, 24 de julho de 2011

Tiger...




Tigre, tigre, brilho flamejante
Na floresta, noite avante,
Que olho ou mão imortal
Expressaria sua pavorosa simetria?

Em qual profundeza ou altura
Queimaria a chama em seu olhar?
Com quais asas ousas voar?
Qual mão se atreve a este fogo apagar?

Com qual ombro ou arte
Do teu coração, torceria as partes?
E quando seu coração começar a bater,
Que horrendo pé ou mão te espanta?

Que martelo, que corrente?
Bate na forja, em sua mente?
Que bigorna, que com o medo
Te sufoca?

Quando as estrelas atirarem suas lanças,
E do céu, a água cair sem esperanças,
Sorrirá ele, ao ver o seu feito?
Quem criou você, deu vida também ao cordeiro?

Tigre, tigre, brilho flamejante
Na floresta, noite avante,
Que olho ou mão imortal
Expressaria sua pavorosa simetria?

William Blake

(Traduzido por Fernando M.)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Frustration.

você nasce, cresce, estuda, trabalha, constitui uma vida social (ou não), trabalha, se apaixona, casa, se cansa, continua casado, tem filhos, e coleciona um sem número de frustrações em relação à carreira, vida, amor, e etc, juntou muito dinheiro, pois foi bem sucedido, ou ficou muito pobre, se ficou rico, vive só o bastante pra ver seus filhos se matando como hienas carniceiras querendo sua herança, se ficou pobre, pode morrer numa cama de hospital público com uma família enorme, ou não, por perto que vai sentir muito a sua falta, mas você morreu e deu final à uma existência absolutamente sem sentido, cuja única realização foi descansar de tanto ter trabalhado pra nada, no final.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Emptiness...

Escuro, escuro, escuro, escuro, escuro,
estou perdido, perdido e sozinho...no escuro;
perdido dentro de mim...
Onde estão meus sonhos?
Todos aqueles que se foram,
onde estão?
Onde estão aqueles que nos juraram amor eterno?
Quando que deixamo-nos cair no próprio esquecimento?
O que nos restou?
Desilusão, dor e angústia;
Estas, nunca se vão...
O homem sempre se distingue das outras
espécies por um fator simples:
são criaturas extremamente rancorosas,
máquinas criadas com o único intuito de machucar
umas às outras.
Em meio a tantas desilusões, mágoas
e pessoas as quais eu machuquei,
eu deixo a vida, eu me entrego.
Você se lembra da última vez na qual foi você mesmo?
Lembra-se de como foi, do que amava,
de como era feliz, do quanto sorria?
Quando foi que assinamos o pacto com o diabo,
Quando barganhamos a existência pela subsistência?
Infelizmente, eu não sei responder...
Perdi-me dentro de mim...
Caí, e continuo afundando, lentamente, na escuridão sem fim...
Adeus.

(Fernando M.)