domingo, 29 de março de 2015

O enforcado.



Desperto de meu sono, tateio no escuro
em busca de alguma lembrança de ti,
reviro a fuligem buscando fantasmas
do meu passado, uma foto embolorada de
lembranças enferrujadas, dias alegres
que outrora cheios de vida,
agora silenciosos, impregnados
de rancor e morte, abraço-me à uma garrafa
de conhaque, já quase vazia, envolto
em amargura, deito-me novamente fitando
a escuridão, esperando o sono que eu sei,
não chegará antes de muita tortura e
angústia, onde também sei que não haverão sonhos,
tampouco descanso, apenas o mesmo sentimento
de vazio que tudo engole e consome,
cujo a solução encontrava-se na ponta deste revólver,
agora já sem a única bala que restara,
que por ti me foi tomada.
Por que levou-me a última bala, por que não levou-me contigo, leviana, ingrata?
Este foi o relato de um homem que já nasceu morto, mas que finalmente decidiu acabar com sua existência deplorável prendendo uma corda ao pescoço e pulando da cadeira.
Adeus.


(Fernando M.)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

E o fim...


Um último fio de sentimento
esvai-se por entre os dedos.
as memórias apegam-se ao papel,
desprendem-se da caneta, apagam-se da memória;
foi-se então, uma alma, perdida nas brancas páginas
da lembrança, sentou-se à beira de uma árvore,
balançando os pés no penhasco, enquanto o vento
levava consigo as folhas do livro do mundo, o qual
nunca de fato visitou ou conheceu, fecharam-se os
olhos aos encantos da vida e encheu de música sem
som, os ouvidos já surdos e gastos pelos tormentos de
fantasmas torturados
de tempos passados.

(Fernando M.)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Capítulo III - A solidão que consome a alma.


Há quem diga que as estradas da vida levam à variados destinos, és responsável por todas escolhas de sua vida, mestre de todos os caminhos para a felicidade e a imortalidade, que é capaz de enganar-lhe a morte e as tragédias; a grande verdade, é que não há tal poder que lhe faça enganar-se a desgraça eminente, todos os finais são idênticos, a opacidade nos olhos de quem se vai é sempre a mesma, independente da condição física e emocional daqueles que se vão, a vida sempre é uma estrada com rumo certo: a solidão.
As pessoas tendem a procurar companhia de outras pessoas para deixar de sentir-se sozinhas, conversam sobre interesses aleatórios, contam histórias, piadas, mentiras e distanciam-se daquelas que não julgam boas o suficiente para servir-lhes de companhia; tateiam cegamente pelos escuros corredores da vida em busca de uma mão a qual segurar, de modo que não sigam esta estranha jornada que é a vida, sozinhas.
Mas e quando não encontram tal mão, não escutam a voz que lhes guiaria pela mortalha nos túneis que guiam-se para o fim? Eu vos digo: o desespero e a loucura espalham-se pela mente destas pessoas como a peste se alastra sobre um
vilarejo, ceifando rapidamente a sanidade e vontade de viver de cada um acometido por esta deplorável condição, transformando os mais sólidos sonhos em devaneios tão frágeis quanto castelos de cartas, que despencam tão silenciosamente quanto os que caem infinitamente nos abismos de suas próprias mentes.
E então, cansado de não ter com quem trilhar, tateei no escuro em busca desta mão, gritei por ajuda em meio à escuridão, mas sem obter alguma resposta, percebi: fadado estou à solidão...

(Fernando M.)

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O vazio



Singelo, o sussurrar do beijo teu,
Tocou-me como o breve vento primaveril,
Ressuscitando-me, como a um tronco que morreu,
Aqueceu-me a face, e sumiu.

Saudoso, o sutil som de tua boca,
Que ria com versos musicais e gentis,
Tal qual uma tempestade, de alegria inundam a alma,
Que se afoga e padece, vai feliz.

Inebriante é o vislumbre do teu rosto,
Luz angelical, invoca de volta à vida ao morto,
Voltou-se à vida para ver-lhe bela,

Vazio é o nome em meus olhos,
Cujo a distância tornou-os mortos,
Na solitude da saudade eterna!

(Fernando M.)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Capítulo II - O abismo que nos separa.




 Um dia eu li em algum lugar, que quando se encara um abismo por muito tempo, o abismo te encara de volta, mas não acho que seja assim que as coisas funcionam; quanto mais tempo se encara um abismo, mais tempo demoramos para nos distinguir como avulso à ele, é esta a grande verdade da vida, nós somos criaturas falhas, maculamos tudo pelo que passamos, e todos a quem tocamos, como uma grande doença que se espalha lenta e inexorávelmente, matando aos poucos pequenos organismos, que por sua vez contaminam organismos maiores ainda...
 Mas o que eu dizia mesmo? Ah! Há um abismo imenso que separa cada ser humano um do outro, e às vezes até de si próprio; alguns não são capazes de enxergá-lo, à mesma medida que outros não enxergam nada além desse abismo; há pessoas que fazem de tudo para cobrir essa distância e conseguir chegar até si próprias, mas esquecem-se das bestas que habitam dentro de sua consciência, e então, num lampejo, perdem-se totalmente dentro da escuridão que há entre seus demônios e o vazio que as separa do resto do mundo, tornando-se amargas e hostis consigo mesmas e com todas as outras que as rodeiam, sem perceber que estão aumentando mais e mais o abismo que há entre elas e os outros.
 Dizem que o abismo te olha de volta, mas é mentira, você se torna o abismo, você adere a ele vagarosamente, deixando de lado, cada parte do que um dia foi ou sonhou ser. O abismo, como uma besta simbiótica, te consome vagarosamente enquanto te protege do monstro que habita sua mente; pouco a pouco, você se deixa cair em sua infinitude, sem sequer notar que agora não passa de um quase.
 E eu, cansado de assistir tantos caindo, percebi que não há o que temer, pois há muito, ele já nos engoliu; é só uma questão de tempo até que você o perceba...


(Fernando M.)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Capítulo I - O monstro dentro de nós




Por muito tempo eu andei, por muito tempo eu pensei, e não acho que esteja próximo de encontrar a origem do monstro que habita dentro de mim.
Este monstro toma para si, cada parte do meu ser, engole todas minhas expectativas, meus sonhos, meus anseios, tira de mim toda a vontade de viver, ele me persegue em cada fresta escura dentro dos meus pensamentos; quando meus dias são iluminados e contentes, ele está ali: seguindo-me de maneira paciente e cruel, esperando o menor lapso de chance para dar o bote.
É neste momento que ele salta para cima de mim e esvazia-me por completo, fazendo com que eu me torne apenas uma casca vazia, vagando debilmente pela terra.
As pessoas não entendem muito bem como é ser tomado pelo monstro, até que elas sejam tomadas por ele uma vez na vida; humanos são incapazes de sentir, mesmo que empaticamente, algo que nunca sentiram, então eles mutilam uns aos outros, desdenham seus iguais e, como golpe de misericórdia, torturam emocionalmente seus iguais.
Ah, mas quando elas são tomadas! É claramente perceptível, você enxerga o abismo dentro de seus olhos, o vácuo que engole cada partícula de emoção em suas vozes, e acima de tudo, a forma como sua postura se torna trêmula e covarde.
Não é nenhuma novidade que este monstro habita meu corpo por um tempo maior do que eu mesmo o faço, ele controla meus pensamentos, meus anseios, minha vontade, e me drena lentamente, gota por gota, até que não sobre nada.
Mas eu aprendi que você não deve temer ser possuído pela besta, o medo realmente começa quando você a possui...



(Fernando M.)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Sobre sangue e corvos...



Noite, noite e nada mais...
E aí está você, trancada em seu buraco
imundo rabiscando as paredes
com sangue e sujeira,
buscando registrar os mais insólitos
momentos jamais vividos ou sequer
sonhados enquanto cabeças rolam
dentro de sua mente, onde elas
teriam sido muito mais do que
realmente foram em sua vida.

Partiu-se, em dois, três e nada restou!
E aí está você, como um fantasma
do passado delirando com sonhos
que jamais ousou viver e olhares
que jamais tocou a luz dos seus
enquanto sombras devoram sua alma
já tão opaca e vazia quanto os olhos
que miram, mas nada enxergam.

Nunca mais, mas nunca foi!
E mais uma vez, aí está você,
revirando cinzas e fuligem em busca
de algo mais que possa ser destruído
pela peçonha de sua língua,
que lambe e atira mentiras tão afiadas
quanto seu sorriso cínico, agora tão
falso quanto o sonho que não vivemos.

Adeus, até nunca mais!
Eu te vejo sangrar enquanto sigo
e te deixo pra trás.
E assim você se vai, com asas tão negras
quanto o ódio que plantou dentro de mim,
marcando com desgraça o caminho que
traça, enquanto me deleito com o delírio
de serrar seus braços, sua cabeça
e suas asas!


(Fernando M.)

(Ilustração por Paulo Esper)