terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Capítulo III - A solidão que consome a alma.


 Há quem diga que as estradas da vida levam à variados 
destinos, és responsável por todas escolhas de sua 
vida, mestre de todos os caminhos para a felicidade e 
a imortalidade, que é capaz de enganar-lhe a morte e as 
tragédias; a grande verdade, é que não há tal poder que lhe 
faça enganar-se a desgraça eminente, todos os finais são 
idênticos, a opacidade nos olhos de quem se vai é sempre a 
mesma, independente da condição física e emocional daqueles 
que se vão, a vida sempre é uma estrada com rumo certo: a 
solidão.
 As pessoas tendem a procurar companhia de outras pessoas para 
deixar de sentir-se sozinhas, conversam sobre interesses 
aleatórios, contam histórias, piadas, mentiras e distanciam-
se daquelas que não julgam boas o suficiente para servir-lhes de 
companhia; tateiam cegamente pelos escuros corredores da vida 
em busca de uma mão a qual segurar, de modo que não sigam 
esta estranha jornada que é a vida, sozinhas.
 Mas e quando não encontram tal mão, não escutam a voz que 
lhes guiaria pela mortalha nos túneis que guiam-se para o 
fim? Eu vos digo: o desespero e a loucura espalham-se pela 
mente destas pessoas como a peste se alastra sobre um 
vilarejo, ceifando rapidamente a sanidade e vontade de viver 
de cada um acometido por esta deplorável condição, 
transformando os mais sólidos sonhos em devaneios tão frágeis 
quanto castelos de cartas, que despencam tão silenciosamente
quanto os que caem infinitamente nos abismos de suas próprias
mentes.
 E então, cansado de não ter com quem trilhar, tateei no 
escuro em busca desta mão, gritei por ajuda em meio à 
escuridão, mas sem obter alguma resposta, percebi: fadado 
estou à solidão...

------- x -------


Fernando Muniz.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Sobre o vazio...



Singelo, o sussurrar do beijo teu,
Tocou-me como o breve vento primaveril,
Ressuscitando-me, como a um tronco que morreu,
Aqueceu-me a face, e sumiu.

Saudoso, o sutil som de tua boca,
Que ria com versos musicais e gentis,
Tal qual uma tempestade, de alegria inundam a alma,
Que se afoga e padece, vai feliz.

Enebriante é o vislumbre do teu rosto,
Luz angelical, invoca de volta à vida ao morto,
Voltou-se à vida para ver-lhe bela,

Vazio é o nome em meus olhos,
Cujo a distância deixou-lhes mortos,
Na solitude da saudade eterna!

Fernando Muniz
(pois o tempo corre, mas a saudade não se estreita)

domingo, 12 de outubro de 2014

Atemporal



O tempo passa,
leva consigo a beleza, a juventude,
a família e os amigos;
o tempo se esvai...
E então você está velho, sozinho
e doente, e não possui muito além
de um punhado de cinzas, que outrora
foram sonhos, os quais alguns realizaram-se,
mas se foram;
O tempo machuca...
Você sente o gosto enferrujado
de lembranças que jamais sonhou
ser capaz de recordar, enxuga as lágrimas
e abraça a nostalgia, sua única companheira;
O tempo corrói, o tempo conserta...
Um sorriso aparece sem se anunciar,
carregando as doces lembranças
do tempo em que sua vida correu,
dos beijos que foram dados e dos que
foram imortalizados numa folha de papel,
nos doces sonhos de alguém que
mais amou do que viveu, mais sonhou
que realizou e mais sentiu do que
tocou; de alguém que se arriscou
nos picos mais altos e nos abismos
mais obscuros de sua mente e do mundo
para aprender as palavras e as canções
que controlam o tempo, para poder
entregar em suas mãos e deixar guiá-lo
em quantos mundos e vezes forem necessários,
para que este amor nunca acabe, para que seja
eterno...

(Pois meu amor é maior que a vida e o tempo).

Fernando Muniz.

sábado, 27 de setembro de 2014

Mar de tinta




Caindo, caindo, caindo...
Abriu os olhos e viu-se
caindo infinitamente,
numa vastidão
de borrões e escuridão,
agarrou-se ao mundo
mais próximo, abrindo
passagem para um mar
de tinta cinza, sem luz,
cor ou vida, apenas um
cinza chato de um antigo
retrato num velho quadro,
com uma mulher pequenina
e rechonchuda, vestida tal
como um curinga,
equilibrando-se numa
corda invisível com
seu guarda-chuva
fechado a cantar num
tom funesto sobre
pessoas que falharam e se afogaram.
Andou até a mulher e perguntou
"onde estamos?"
mas ela não lhe respondeu,
permaneceu concentrada em
sua corda-bamba invísivel
enquanto cantava baixinho
"afogaram-se os homens,
os amores, os sonhos..."
cutucou-a com o dedo "responda-me!"
somente para ser ignorado
e desistir de uma conversa,
seguiu caminho pelo deserto
de tinta enquanto repetia,
inconscientemente, em sua
cabeça "afogaram-se os sonhos..."
quando pisou em falso e caiu,
caiu e continuou caindo,
até que sumiu na escuridão...

Sem mais,

Fernando Muniz.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

A princesa e os sonhos na terra mágica...

Ainda que meio dormindo,
levantei, e no espelho, me vi sumindo,
Abri minhas asas e voei, talvez fosse
um sonho e ainda estivesse dormindo.
Enquanto voava, encontrei árvores e
castelos, monstros e pesadelos, gênios
e desejos, eu não sabia que sonhava...
Adentrei um castelo, estava vazio e quieto,
as portas abertas e ninguém por perto,
tinha no ar um tom triste, quase funesto...
Desci até o porão, e assustei-me então,
um soluço ecoou por todo o salão,
havia ali uma bela dama, perdida em depressão.
Corri até ela e tomei-lhe a mão,
"por que está tão triste assim, minha nobre dama,
te dou minha alegria e lhe canto uma canção"
Tomei dela um sorriso, abri minhas asas e
peguei-a pela mão; voamos alto,
voamos juntos e ganhei outro sorriso,
dei-lhe então, uma canção.
Visitamos terras incríveis, mas sem calabouço
ou dragão, apenas lugares bonitos,
nunca visitados até então.
Roubei-lhe um beijo, que me foi retribuído
com ternura, com paixão; e então desvaneceu-se
à minha frente, fora somente um sonho,
levou consigo, meu coração.


Sem mais,

Fernando Muniz

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Capítulo II - Sobre o abismo que nos separa.




 Um dia eu li em algum lugar, que quando se encara um abismo por muito tempo, o abismo te encara de volta, mas não acho que seja assim que as coisas funcionam; quanto mais tempo se encara um abismo, mais tempo demoramos para nos distinguir como avulso à ele, é esta a grande verdade da vida, nós somos criaturas falhas, maculamos tudo pelo que passamos, e todos a quem tocamos, como uma grande doença que se espalha lenta e inexorávelmente, matando aos poucos pequenos organismos, que por sua vez contaminam organismos maiores ainda...
 Mas o que eu dizia mesmo? Ah! Há um abismo imenso que separa cada ser humano um do outro, e às vezes até de si próprio; alguns não são capazes de enxergá-lo, à mesma medida que outros não enxergam nada além desse abismo; há pessoas que fazem de tudo para cobrir essa distância e conseguir chegar até si próprias, mas esquecem-se das bestas que habitam dentro de sua consciência, e então, num lampejo, perdem-se totalmente dentro da escuridão que há entre seus demônios e o vazio que as separa do resto do mundo, tornando-se amargas e hostis consigo mesmas e com todas as outras que as rodeiam, sem perceber que estão aumentando mais e mais o abismo que há entre elas e os outros.
 Dizem que o abismo te olha de volta, mas é mentira, você se torna o abismo, você adere a ele vagarosamente, deixando de lado, cada parte do que um dia foi ou sonhou ser. O abismo, como uma besta simbiótica, te consome vagarosamente enquanto te protege do monstro que habita sua mente; pouco a pouco, você se deixa cair em sua infinitude, sem sequer notar que agora não passa de um quase.
 E eu, cansado de assistir tantos caindo, percebi que não há o que temer, pois há muito, ele já nos engoliu; é só uma questão de tempo até que você o perceba...

------- x -------


Sem mais,

Fernando Muniz