sexta-feira, 8 de junho de 2018

Contando Estrelas.





O relógio anunciava a
meia noite, a lua
brilhava lindamente,
iluminando de modo sombrio
a escrivaninha prostrada sob a janela;

a garota rabiscava timidamente
um pedaço de papel,
fitando amargamente o
espelho na penumbra.

Sua expressão não dizia nada,
os olhos estavam cálidos como sua boca,
reflexo do esforço que fazia para
transportar para o papel
tudo que havia dentro de si.

Apesar do ar lúgubre da noite,
o céu brilhava
com um brilho tão reluzente,
que não seria difícil
chorar ao contemplar tal beleza.

As estrelas pareciam cair do céu,
como se o cosmos estivesse aos
prantos, com suas lágrimas brilhantes
e de luz incessante,
apesar da curta vida de uma estrela.

Ela mal se importava,
apenas dedicava-se à
escrever no papel, o que
em breve, seria uma carta.

Devotadamente, a garota ergueu
o papel no ar,
beijando-o com toda
a doçura que extraiu de tua'lma;

Fitou de modo amargo,
ainda que com um fio de esperança,
as estrelas a despencar
no infinito, deixando que
o vento levasse seus
cabelos para trás, recitou:

"Que minhas palavras voem,
voem como o vento,
que sejam capazes de
tocar teu coração como
o calor do teu sorriso tocou o meu;

voe meu anjo, voe comigo
para longe deste lugar,
e faça-me conhecer os
doces caminhos da vida
no calor de teus braços..."

(Fernando Muniz)
(O sorriso encanta, assim como os olhos, fulgurantes como a chama)

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Súcubo



Beleza fatal
corrompe os sentidos,
o beijo mortal.

(Fernando Muniz)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O sétimo filho.




Meio-dia, o sol escaldante, uma multidão descontrolada, e cá estou eu, com a corda no pescoço, esperando o padre rezar o "pai nosso" para minha sentença de morte. E por que isso tudo?
 Dois dias atrás, também não saberia te dizer o por quê, e, exceto pelo fato de que os cavalos não param de gritar e se debater nos estábulos (como se sentissem o mal que carrego), eu diria que é porque sou o sétimo filho da sétima filha, e cresci a vida toda ouvindo as pessoas dizerem que meu pai é o próprio diabo.
 Por causa disto, passei a vida todo recluso ao porão dos meus pais, praticamente sem contato com as pessoas. Vez ou outra eles me levavam à cidade para me comprar roupas ou algum brinquedo, não que eles me odiassem, eu conseguia sentir nos olhos deles, era medo, puro e irracional, o mesmo medo que o porco sente quando o açougueiro se aproxima com o cutelo, pronto para fazê-lo sangrar até o amargo fim; passaram-se alguns anos, e a falta de luz conferiram-me um ar de doente, minha pele era pálida, como uma madrugada de inverno, e meus olhos, escuros tão escuros e profundos quanto o abismo que habita o interior de cada ser humano. Ao completar 14 anos, meus pais já não acreditavam que eu fosse uma ameaça, e deixaram que eu me mudasse para a parte de cima da casa, onde eu tinha um quarto com uma estante de livros (modesta, admito) e uma janela grande, a qual me serviu muito bem para admirar o sol se pondo e a lua subindo...
 Ah, a lua! Tão bela e resplandecente a beijar minha face nas noites mais solitárias, com sua mágica fascinante, como uma sereia cantando em meus ouvidos "Venha pra mim, meu doce filho", mas então eu me lembrava das histórias, e sempre recusava seu chamado; este, que foi ficando cada vez mais atraente e sedutor, até que não pude recusá-lo e entreguei-me de corpo e alma ao doce cântico da Nêmesis do dia, sentindo minha pele rasgando e meu sangue fervendo, a adrenalina injetada em cada parte do meu corpo; a sede de sangue crescendo em meu âmago. Mal pude controlar o êxtase que corria dentro de mim, enquanto dilacerava minhas irmãs e meus pais, bebendo e festejando sob o sangue quente, ouvia os animais guinchando desesperadamente tentando fugir da minha presença aterradora.
 Rendi-me à besta, destruí, dilacerei e dancei sob os cadáveres mutilados de meus familiares sob a luz pálida da mãe da noite, alimentei-me do sangue e da carne que me trouxe ao mundo, e então corri livre pela noite, cruzei sete cidades, sete cemitérios e sete igrejas. E então, ao amanhecer, adormeci, acordei confuso, sujo e cansado, banhado em sangue e vísceras, não tardou muito até o xerife me encontrar junto com seus homens e me trazer à forca.
 A corda apertando meu pescoço, as pessoas me apedrejando, e esconjurando minha presença e o Padre, logo após rezar o pai nosso virou-se para mim e disse: - Esqueceu-se do rosto do seu Pai, bastardo do diabo? Pois hoje, em nome do único e verdadeiro Deus, envio você de volta para o lugar de onde veio, cria do inferno!
 - Adeus, vida.



(Fernando Muniz)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O encanto



A vida continua....
Mesmo depois de traições,
Discórdias, inimizades e esquecimento,
Após o medo, depois da solidão,
Antes de sentirem-se tristes ou felizes,
A vida continuará;
E sempre continuou,
Quando estive sozinho, ou cercado de gente,
Ela continuou
Mesmo que nada fizesse,
E nunca parava,
Nem mesmo para nos observar;
A vida nunca parou para
Contemplar sua beleza
[como eu],
E seguiu em frente ao perceber
Que o seu encanto não iria embora...
Ela estava me trazendo um
Presente cheio de brilho e coisas felizes...
[seus olhos]
Ela me roubou com um sorriso...
E me devolveu aquilo que eu havia perdido com tristeza...
[um sonho]
A vida continuou me levando, rumo ao desconhecido...
Enquanto seguia o caminho da vida,
Pensei, reparou alguma vez na morte?
Ela sim... contemplou cada momento seu,
Vislumbrando momentos mais remotos,
Com olhares ávidos
[como os meus]
Perseguindo cada instante,
Sonhando com o momento
Em que te teria em seus braços
[tal como sonhei, sem jamais ter],
E mesmo parada, apenas observando,
Não deixou de sentir extrema saudade;
Ela te aguardava em repouso
Toda encantada por ti...
[assim como eu]
E em seu último frasco de vida encantada,
Ela chegou para tocar-lhe a face...
Sonhando com o dia em que nos colocaria
No eterno repouso, sem dor,
Sem rancor, somente o encanto;
E antes que você se vá de mim,
Tornar-lhe-ei meu mais belo quadro,
Minha mais singela poesia,
Imortalizada em carne e sentimento.
E por todas as noites restantes,
Eu dedilharei-lhe como um instrumento,
E cantarei aos ventos sobre você, e te farei a mais doce melodia,
para que todos saibam, és tu, o mais singelo sentimento
Jamais escrito, cantado, e amado.


Fernando Muniz

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Coração em 8 bits.





Pegue em minha mão,
Vamos cavalgar longe,
Para onde as estrelas nos beijam
E nos torna implacáveis.

Pegue em minha mão,
Vamos fugir para longe,
Onde os olhares cruéis e vis
Não destroçam nossos corpos virtuais.

Pegue em minha mão,
Vamos correr para longe,
Onde os cogumelos
Nos torna fortes e grandiosos.

Corra comigo,
Vamos correr para longe,
Onde espadas e lanças não
Machucam nossos corações digitais.

Corra comigo,
Vamos alcançar o castelo,
Onde o único fantasma
É aquele que habita nossos sonhos...

Corra comigo,
Vamos alcançar a espada mágica,
Pois é ela que nos dará força
Para derrotar nossos demônios interiores...

Voe comigo,
Vamos voar para longe,
Onde os monstros da noite
Não podem machucar nossos corpos 2D...

Voe comigo,
Vamos voar bem rápido,
Para que o mundo não consiga
Ferir nossos sentimentos eletrônicos...

Voe comigo,
Vamos voar para o alto,
Para que não haja espada
Capaz de partir meu coração de 8 bits...

Sem mais,

Fernando Muniz.

domingo, 29 de março de 2015

O enforcado.



Desperto de meu sono, tateio no escuro
em busca de alguma lembrança de ti,
reviro a fuligem buscando fantasmas
do meu passado, uma foto embolorada de
lembranças enferrujadas, dias alegres
que outrora cheios de vida,
agora silenciosos, impregnados
de rancor e morte, abraço-me à uma garrafa
de conhaque, já quase vazia, envolto
em amargura, deito-me novamente fitando
a escuridão, esperando o sono que eu sei,
não chegará antes de muita tortura e
angústia, onde também sei que não haverão sonhos,
tampouco descanso, apenas o mesmo sentimento
de vazio que tudo engole e consome,
cujo a solução encontrava-se na ponta deste revólver,
agora já sem a única bala que restara,
que por ti me foi tomada.
Por que levou-me a última bala, por que não levou-me contigo, leviana, ingrata?
Este foi o relato de um homem que já nasceu morto, mas que finalmente decidiu acabar com sua existência deplorável prendendo uma corda ao pescoço e pulando da cadeira.
Adeus.

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Fernando Muniz
(escrito em 2015)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

E o fim...


Um último fio de sentimento
esvai-se por entre os dedos.
as memórias apegam-se ao papel,
desprendem-se da caneta, apagam-se da memória;
foi-se então, uma alma, perdida nas brancas páginas
da lembrança, sentou-se à beira de uma árvore,
balançando os pés no penhasco, enquanto o vento
levava consigo as folhas do livro do mundo, o qual
nunca de fato visitou ou conheceu, fecharam-se os
olhos aos encantos da vida e encheu de música sem
som, os ouvidos já surdos e gastos pelos tormentos de
fantasmas torturados
de tempos passados.


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Fernando Muniz
(escrito em 2015)