terça-feira, 11 de março de 2025

A Raposa e o Pato.

Ato I - Uma aliança Improvável.


Era uma terra de velhas canções e raízes profundas, onde as árvores sussurravam ao vento e os riachos murmuravam histórias esquecidas. O Bosque da Esperança, como era chamado pelos mais antigos, estendia-se sob o céu pálido como um tapete de musgo e sombras. Ali, entre galhos retorcidos e clareiras banhadas de luar, vivia uma criatura astuta e solitária: Lia, a raposa dourada.

Seu nome era falado em tom de cautela entre os pequenos do bosque. Não havia animal que não conhecesse sua inteligência afiada e sua astúcia sem igual. Lia era veloz como uma flecha e silenciosa como o cair da folha no outono. Mas tão grande quanto sua esperteza era a solidão que carregava, pois ninguém ousava chamá-la de amiga.

Diferente dela era Fausto, o pato errante, uma criatura desajeitada que caminhava como se cada passo fosse um desafio à própria natureza. Suas asas, curtas e desorganizadas, raramente sustentavam seu voo, e suas palavras eram tão simples quanto sua alma era grandiosa. Mas se lhe faltava destreza, sobrava-lhe bondade, pois Fausto jamais deixava um companheiro padecer de fome ou sede.

Certa manhã enevoada, Lia observou o pato em sua costumeira tolice: compartilhava migalhas de pão com um esquilo faminto e uma tartaruga idosa. A raposa, oculta entre as folhagens, arqueou as sobrancelhas. "Que presa ingênua", pensou. "Será fácil tomar para mim o que ele tão generosamente entrega aos outros."

Aproximou-se com um ar calculadamente dócil.

Ora, Fausto! Que bom coração tens… Não negarias alimento a uma pobre raposa exausta, não é?

Fausto, sem hesitar, estendeu-lhe um punhado de grãos e frutas.

O que há de bom deve ser dividido, Lia, é a verdadeira alegria da vida. O bosque é vasto e há de suprir a todos.

Lia pegou a oferta, mas algo estranho a deteve. Não havia medo nos olhos de Fausto, nem suspeita. Apenas sincera generosidade. Sentiu, pela primeira vez, que talvez houvesse algo além de jogos e artimanhas.

Os dias passaram, e a raposa passou a caminhar ao lado do pato, sempre com o pretexto de observá-lo, entender sua tolice — ou talvez, embora não admitisse, apreciar sua companhia.


Ato II - O flagelo


Foi então que sobreveio a grande seca. O bosque, outrora verdejante, tornou-se um campo ressequido, e o riso dos riachos calou-se sob o peso da poeira. Os animais, enfraquecidos, murmuravam temerosos.

Lia, que sempre confiara apenas em si mesma, percebeu a gravidade da situação. A fome ela poderia suportar; mas a sede, ah, a sede não perdoava. Ela sabia que, se a água não fosse encontrada, o bosque inteiro pereceria.

Fausto, há um curso de água escondido em algum lugar, disso tenho certeza. Mas não poderei encontrá-lo sozinha.

O pato inclinou a cabeça.

O que faremos, então?

Minha astúcia e olfato nos guiará, tua habilidade na água nos levará onde minhas patas não podem alcançar.

Lia subia às árvores mais altas para avistar vestígios de um antigo riacho, enquanto Fausto nadava nos poucos lagos remanescentes, explorando fendas e túneis submersos.

Dias se passaram, e a esperança vacilava como uma chama ao vento. Mas então, numa tarde em que o céu pesava com promessas de tempestade, Fausto emergiu de um túnel subterrâneo com olhos brilhantes.

Lia! Há um riacho oculto sob as pedras, profundo e fresco!

A raposa, arfando pelo cansaço, correu até o local indicado. Com suas garras afiadas, escavou a terra seca, e pouco a pouco o líquido cristalino rompeu o solo, brotando como a própria essência da vida. Fausto, exasperado, foi buscar os castores para quebrar a barragem natural e trazer de volta vida ao bosque, que outrora murcho e silencioso, despertou com a notícia. Outros animais vieram de todas as partes, e juntos, abriram um caminho para que o riacho fluísse novamente. A água correu entre as raízes das árvores, trazendo de volta o verde e o canto dos pássaros.

Naquele dia, algo mudou entre Lia e Fausto. A raposa, que um dia pensara em enganar o pato, percebeu que a amizade verdadeira era um tesouro muito maior do que qualquer vantagem passageira.

E o pato, que sempre acreditara no bem, viu que até um coração ressequido pela desconfiança podia ser tocado pela luz da amizade.

Desde então, caminharam lado a lado, não mais como caçador e presa, mas como companheiros de jornada. E os sussurros do bosque jamais deixaram de contar sua história, pois Lia, e Fausto, tornaram-se lendas entre as raízes do bosque.


(Fernando M.)

sábado, 8 de março de 2025

O Reino Oculto de Lesavija



Era uma vez, em uma vila humilde e esquecida pelo tempo, dois irmãos de espírito inquieto e olhos ávidos pelo desconhecido: Hugo e Elias. A vila jazia à beira de uma antiga floresta, densa e impenetrável, cujas sombras murmuravam histórias há muito esquecidas. Os aldeões, temerosos, evitavam adentrar suas entranhas, pois sussurros falavam de encantamentos e criaturas que existiam além da compreensão mortal.

Certa manhã, ao buscar lenha nos arredores da mata, os irmãos depararam-se com um tronco oco, coberto por musgo e flores douradas. Hugo, mais ousado, avançou sem hesitar, pisando sobre raízes retorcidas, quando de súbito o solo cedeu sob seus pés. Elias tentou agarrá-lo, mas foi arrastado junto, e ambos desabaram através de um túnel oculto, cuja escuridão os envolveu como um véu.

Quando se ergueram, perceberam que não mais estavam no mundo dos homens. Ao redor deles se estendia um vale resplandecente, onde árvores frondosas cintilavam à luz de um sol dourado e riachos murmuravam cânticos cristalinos. Flores de mil cores exalavam perfumes inebriantes, e ao alto, entre os ramos, esvoaçavam seres alados de beleza etérea. Eram fadas e elfos, habitantes do lendário reino de Lesavija, uma terra oculta aos olhos mortais, onde a magia fluía como o vento entre as montanhas.

Diante deles surgiu uma fada de cabelos como fios de ouro e olhos tão límpidos quanto a aurora. Seu nome era Liriel, e sua voz era suave como a brisa em um campo florido.

— Raros são os mortais que põem os pés em Lesavija, e mais raros ainda aqueles que partem com dádivas de nossa terra — disse ela. — Mas vós viestes sem malícia, e por isso vos concedo o direito de um presente antes de retornardes ao vosso mundo.

Hugo, cujo coração ardia de desejo por riquezas e grandezas, olhou em volta e viu que ali havia maravilhas além de qualquer tesouro dos reis. Árvores cujos frutos eram feitos de ouro puro, pedras preciosas brotando da terra como flores, lagos onde a água brilhava com a prata líquida da lua. Seus olhos brilharam de ambição, e sem hesitar, declarou:

— Quero uma sacola encantada, que jamais fique vazia de ouro!

Liriel o fitou com um olhar enigmático, como quem enxerga além do tempo e da carne. Então, erguendo uma das mãos, estalou os dedos. Surgiu, como se tecida pelo próprio vento, uma sacola de veludo negro. Hugo agarrou-a ansioso e, ao abri-la, viu que dentro tilintavam moedas reluzentes, infinitas como as estrelas no céu.

Então, a fada voltou-se para Elias, que até então permanecera calado, absorvendo a grandiosidade daquele reino oculto.

— E tu, que desejo carregas em teu coração?

Elias hesitou por um instante. Seu irmão cobiçava ouro, mas ele percebia que nenhuma riqueza que seus olhos vislumbravam era mais valiosa que a serenidade que pairava sobre aquele lugar. Ali não havia fome, nem disputas, nem olhos tomados pela inquietação do desejo incessante. Inspirando profundamente, respondeu:

— De todas as maravilhas de Lesavija, o que mais me encantou foi a paz que aqui reside. Se me for permitido um desejo, peço que meu coração jamais seja tomado pela insatisfação, que eu nunca deseje mais do que o necessário para viver feliz.

Liriel sorriu, e havia em seu semblante uma centelha de admiração. Tocando levemente o peito de Elias com a ponta dos dedos, disse:

— Teu pedido é sábio, e tua alma, mais rica do que pensas. Leva contigo um coração pleno, imune à sombra da ganância.

Com isso, os irmãos foram guiados de volta ao túnel e despertaram em sua vila, como se tudo tivesse sido um sonho — mas um sonho que deixara marcas profundas.

Nos primeiros dias, Hugo regozijou-se. Com sua sacola mágica, adquiriu terras e palácios, cobriu-se de sedas e joias, e banqueteou-se como os reis das lendas. Contudo, o ouro, que antes lhe parecia um dom divino, tornou-se uma corrente invisível. Quanto mais possuía, mais sua alma ansiava, e sua mente se enredava em temores e desconfianças. Outros homens cobiçavam sua fortuna e o seguiam com olhos famintos, e ele passou a viver em perpétua inquietação, pois o ouro chamava não apenas admiração, mas também a inveja e a traição. Seu coração, tão ávido por riqueza, jamais encontrava descanso.

Elias, por outro lado, retornou à sua vida simples, e nela encontrou contentamento. O pão em sua mesa lhe parecia mais doce, o canto dos pássaros mais melodioso, e as pequenas alegrias do dia a dia eram para ele tesouros inestimáveis. Nunca ansiou por mais do que possuía, e assim seu espírito permaneceu leve, imune ao peso do desejo incessante.

Com o tempo, Hugo tornou-se escravo de sua própria fortuna, e um dia, tomado pelo desespero, lançou sua sacola mágica ao rio, esperando livrar-se da maldição da insatisfação. Mas a angústia permaneceu, pois não era o ouro que o atormentava, mas sim seu próprio coração, envenenado pela cobiça.

Enquanto isso, Elias viveu sereno até o fim de seus dias, cercado pelo afeto dos seus e pelo brilho de um coração que nada mais desejava além da felicidade que já possuía.

E assim, o reino oculto de Lesavija ensinou uma vez mais que a verdadeira riqueza não reside no ouro ou na prata, mas na paz de um coração satisfeito.


(Fernando M.)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

A falta


Às vezes eu sinto muita falta.

Das pessoas, dos lugares, 

das coisas, das conversas, 

sinto muita falta, de tudo. 


Sinto falta do tempo que morei longe da cidade grande, dos sorrisos genuínos e das pessoas simples, que amavam a vida sem muita profundidade, com aquele conformismo simplista de que as coisas são como são, e de que o mundo é do jeito que é, sem grandes ambições, com um pouquinho de fé religiosa e um monte de disposição, continuam sua luta diária, sinto muita falta.


Sinto falta de sentar numa pedra e ficar observando a imensidão do oceano, de saber como sou tão pequeno diante de um mundo tão populoso e vasto, e como meus problemas são tão insignificantes e voláteis num planeta tão grande, ouvindo o som das ondas quebrando, com a certeza de que o nosso tempo é do tamanho de um grão de areia, como eu sinto falta. 


Sinto falta de olhar pro céu e ser capaz de ver estrelas, de perceber que o universo é tão vasto que até mesmo esse planeta imenso é só um anão se comparado à tamanha vastidão universal, absorver as estrelas com os olhos e perceber que nossa vida é mais ínfima que a estrela que explodiu somente pra brilhar por uma eternidade, ainda que sua luz esteja eternizada em meus olhos, que falta eu sinto!


Sinto falta de um par de olhos que nunca vi, mas que eu sei, carregam em seu brilho todos os mistérios da criação e tem a força de um buraco negro e a luz de um sol, que me ofusca e me inunda, ao mesmo tempo que engole completamente todo o meu ser, refletindo de volta toda a força e vitalidade da qual preciso para sempre seguir em frente, realmente, eu sinto falta. 


Sinto falta de todos os sentimentos mais verdadeiros e dos olhares mais honestos, das risadas e da sensação de estar completamente ébrio sem nem sequer um gole ter chegado aos meus lábios. De ouvir aquela voz angelical e sentir meu coração em disparada, do calor das mãos dela e o som de tambor dos nossos corações batendo em uníssono, e então, acordo desolado e atônito, eu sinto tanta falta.


Às vezes eu sinto tanta falta,

desse alguém, destes lugares,

das conversas e dos olhares, 

ainda que seja pura fantasia, 

sinto falta do que eu sonhava. 


(Fernando M.) 


segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

A canção da flor silvestre



Caminhava perene

Entre folhas e chão,

Ouvi uma flor silvestre

Cantando uma canção.


"Na terra adormeci

Na noite a silenciar,

Murmurei meus temores

E senti-me a alegrar.


"Ao amanhecer me ergui,

Rosada tal a aurora,

Busquei motivos para sorrir,

Encontrei somente escória."


(William Blake  - Tradução por Fernando M.)


sábado, 13 de julho de 2024

Trabalho

De todas as coisas

que vivemos, do tempo

que gastamos, das horas

em que envelhecemos,

é do labor, o cansaço,

o rechaço que nós temos.


Trabalhar não faz mal,

um fato sem igual,

é como passamos a vida, 

como nossa integridade e

dignidade são medidas,

É do trabalho que fazemos.


No entanto, parece confuso, 

pois isto não nos define, 

ou assim dizem muitos, 

você não é sua ocupação, 

mas o que sente, pensa e

realiza, constante da vossa ação.


Sendo assim, nunca fui muito,

pois penso mais que tudo,

minha existência é trabalho e estudo,

tento ter valor sem ser produto,

infelizmente, dentre tantos, 

valho menos que um defunto. 


(Fernando M)

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Você resolveu tirar a própria vida, te escrevi uma despedida.

Dos vícios, das questões, dos amores,
Do ópio que nos distrai dessas dores;
Nenhum se compara a abandonar
Os próprios valores.

Dos lamentos, das angústias, dos venenos,
Da bebida que nos isenta da culpa;
Não há nessa vida, o que doa mais que
O pesar da despedida.

Com o coração apertado,
Eu grito seu nome, 
Desesperado.

Com os olhos marejados, 
Eu rezo em seu nome, 
Despedaçado.

(Fernando M)

quinta-feira, 28 de março de 2024

Oppe og ikke gråter




Eu ouvi de um conhecido que na Noruega, quando te perguntam como vão as coisas, se responde "em pé, e sem chorar". Acho engraçado, não importa o quão ruins estejam as coisas, você não está chorando, e também não desistiu. É engraçado pensar em como a natureza nunca desiste, certa vez vi um gato matando um inseto, e ainda que ele quebrou as asas e tinha só uma pata inteira, ainda tentava debilmente sair do lugar como se tivesse que fugir e viver o máximo que pudesse, o mesmo vale para animais, para pessoas. Décadas atrás, quando eu ainda era uma pessoa completamente diferente do que me tornei, presenciei um acidente de carro terrível, e o homem no meio das ferragens, sem metade do corpo, sobreviveu e balbuciava por ajuda, os braços debilmente tentavam segurar partes do corpo que iam caindo junto com o sangue que escorria, mas ele não desistia, se apegava à vida. Eu ando pelas ruas e vejo pessoas morando nas ruas, ainda que eu mesmo já tenha estado nessa situação, hoje em dia tenho um teto acima de mim, assisto de longe as pessoas e como elas fazem literalmente qualquer coisa que conseguirem para seguir em frente e sobreviver, o quão longe uma pessoa é capaz de ir pela sobrevivência? Eu vejo nos jornais, pessoas que não tem o que comer há semanas, e a pele esticada sob os ossos e seus olhares famintos que engolem tudo que podem com sua falta de brilho, animais que ao perceberem que são caça ou que vão para o abate se tornam completamente insanos, o apego à vida é uma força quase que sobrenatural. Disse Bernard Cornwell em um dos seus livros "Tirar uma vida é uma tarefa extremamente difícil" e eu nunca entendi como é possível ter um apego tão imenso à vida, ser tão resiliente, uma força inexorável que sai do âmago e te faz viver à qualquer custo.  Eu sempre fui o contrário; sempre procurei o máximo de oportunidades que podiam me fazer partir da vida, sempre achei que existir era sofrer, que respirar era tortuoso e que se a morte viesse, seria a amiga mais bem vinda à visitar. Ainda assim, após 3 minutos de parada cardíaca, me trouxeram de volta, funcionando ainda melhor do que antes, voltei sem sequer saber que parti, mas também não pedi para voltar, ainda assim, estou aqui, e não há solidão ou angústia que me faça sumir. Sinto como se tivesse criado raízes, não em algum lugar, mas na existência em si. De todas as coisas da vida, a ironia é a maior delas, pois eu, que sempre quis partir da vida o mais rápido possível, continuo aqui. Em pé e sem chorar.


(Fernando M.)