Ato I - Uma aliança Improvável.
Era uma terra de velhas canções e raízes profundas, onde as árvores sussurravam ao vento e os riachos murmuravam histórias esquecidas. O Bosque da Esperança, como era chamado pelos mais antigos, estendia-se sob o céu pálido como um tapete de musgo e sombras. Ali, entre galhos retorcidos e clareiras banhadas de luar, vivia uma criatura astuta e solitária: Lia, a raposa dourada.
Seu nome era falado em tom de cautela entre os pequenos do bosque. Não havia animal que não conhecesse sua inteligência afiada e sua astúcia sem igual. Lia era veloz como uma flecha e silenciosa como o cair da folha no outono. Mas tão grande quanto sua esperteza era a solidão que carregava, pois ninguém ousava chamá-la de amiga.
Diferente dela era Fausto, o pato errante, uma criatura desajeitada que caminhava como se cada passo fosse um desafio à própria natureza. Suas asas, curtas e desorganizadas, raramente sustentavam seu voo, e suas palavras eram tão simples quanto sua alma era grandiosa. Mas se lhe faltava destreza, sobrava-lhe bondade, pois Fausto jamais deixava um companheiro padecer de fome ou sede.
Certa manhã enevoada, Lia observou o pato em sua costumeira tolice: compartilhava migalhas de pão com um esquilo faminto e uma tartaruga idosa. A raposa, oculta entre as folhagens, arqueou as sobrancelhas. "Que presa ingênua", pensou. "Será fácil tomar para mim o que ele tão generosamente entrega aos outros."
Aproximou-se com um ar calculadamente dócil.
— Ora, Fausto! Que bom coração tens… Não negarias alimento a uma pobre raposa exausta, não é?
Fausto, sem hesitar, estendeu-lhe um punhado de grãos e frutas.
— O que há de bom deve ser dividido, Lia, é a verdadeira alegria da vida. O bosque é vasto e há de suprir a todos.
Lia pegou a oferta, mas algo estranho a deteve. Não havia medo nos olhos de Fausto, nem suspeita. Apenas sincera generosidade. Sentiu, pela primeira vez, que talvez houvesse algo além de jogos e artimanhas.
Os dias passaram, e a raposa passou a caminhar ao lado do pato, sempre com o pretexto de observá-lo, entender sua tolice — ou talvez, embora não admitisse, apreciar sua companhia.
Ato II - O flagelo
Foi então que sobreveio a grande seca. O bosque, outrora verdejante, tornou-se um campo ressequido, e o riso dos riachos calou-se sob o peso da poeira. Os animais, enfraquecidos, murmuravam temerosos.
Lia, que sempre confiara apenas em si mesma, percebeu a gravidade da situação. A fome ela poderia suportar; mas a sede, ah, a sede não perdoava. Ela sabia que, se a água não fosse encontrada, o bosque inteiro pereceria.
— Fausto, há um curso de água escondido em algum lugar, disso tenho certeza. Mas não poderei encontrá-lo sozinha.
O pato inclinou a cabeça.
— O que faremos, então?
— Minha astúcia e olfato nos guiará, tua habilidade na água nos levará onde minhas patas não podem alcançar.
Lia subia às árvores mais altas para avistar vestígios de um antigo riacho, enquanto Fausto nadava nos poucos lagos remanescentes, explorando fendas e túneis submersos.
Dias se passaram, e a esperança vacilava como uma chama ao vento. Mas então, numa tarde em que o céu pesava com promessas de tempestade, Fausto emergiu de um túnel subterrâneo com olhos brilhantes.
— Lia! Há um riacho oculto sob as pedras, profundo e fresco!
A raposa, arfando pelo cansaço, correu até o local indicado. Com suas garras afiadas, escavou a terra seca, e pouco a pouco o líquido cristalino rompeu o solo, brotando como a própria essência da vida. Fausto, exasperado, foi buscar os castores para quebrar a barragem natural e trazer de volta vida ao bosque, que outrora murcho e silencioso, despertou com a notícia. Outros animais vieram de todas as partes, e juntos, abriram um caminho para que o riacho fluísse novamente. A água correu entre as raízes das árvores, trazendo de volta o verde e o canto dos pássaros.
Naquele dia, algo mudou entre Lia e Fausto. A raposa, que um dia pensara em enganar o pato, percebeu que a amizade verdadeira era um tesouro muito maior do que qualquer vantagem passageira.
E o pato, que sempre acreditara no bem, viu que até um coração ressequido pela desconfiança podia ser tocado pela luz da amizade.
Desde então, caminharam lado a lado, não mais como caçador e presa, mas como companheiros de jornada. E os sussurros do bosque jamais deixaram de contar sua história, pois Lia, e Fausto, tornaram-se lendas entre as raízes do bosque.
(Fernando M.)